Lívia Leandro / Especial para a Agência Cariri
Neste domingo, 22 de março, é celebrado o Dia Mundial da Água. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) para conscientizar sobre a necessidade de preservação dos mananciais e do saneamento básico para melhorar a saúde e as condições de vida de pessoas em todo o planeta. Na região do Cariri cearense, as obras de implantação de redes de esgotamento sanitário executadas por meio da Parceria Público-Privada entre a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e a empresa Ambiental Ceará, são vistas como esperança de reverter a poluição de recursos hídricos como o rio Cariús, no município de Farias Brito, distante 475 quilômetros da capital, Fortaleza.
Segundo informações repassadas pela Ambiental Ceará, considerando a área urbana de Farias Brito e o Distrito de Cariutaba, cerca de 32 milhões de litros de esgoto doméstico são despejados mensalmente diretamente no rio Cariús e em riachos da região, sem qualquer tipo de tratamento. “O descarte incorreto desses efluentes de grande, médio e pequeno porte dos aglomerados urbanos contribuem de forma demasiada para eutrofização – processo de poluição aquática provocada pelo excesso de nutrientes – dos corpos hídricos e a diminuição da qualidade ecológica do ecossistema”, afirma o professor de Biologia da Universidade Regional do Cariri (URCA), Hênio Melo.
Especialista em ecossistemas aquáticos, o biólogo destaca que o saneamento básico representa uma mudança significativa para a saúde pública e para a preservação ambiental. “O saneamento é um marco fundamental. Ele evita que os efluentes urbanos sejam lançados no rio Cariús, reduz a poluição e melhora a qualidade da água devolvida à natureza”, explica o professor. O rio Cariús é um importante afluente do Rio Jaguaribe, que corta parte de Farias Brito e possui grande importância na agricultura local, no abastecimento e na preservação do meio ambiente.
Depois de décadas convivendo com mau cheiro, esgoto à céu aberto e riscos à saúde, Farias Brito deu seu primeiro passo rumo à universalização do esgotamento sanitário em 2025. De acordo com a Ambiental Ceará, somente no ano passado foram investidos cerca de R$ 25 milhões na implantação de onze quilômetros de rede coletora, atendendo cerca de 3.500 moradores.
A expectativa da população de Farias Brito é que a coleta e o tratamento dos esgotos reduza drasticamente a presença de poluentes no município, devolvendo ao rio Cariús água limpa e segura, o que favorece a recuperação da biodiversidade aquática e melhora a qualidade da água para Farias Brito e também para os municípios vizinhos. A poluição dos mananciais influencia diretamente na saúde. A exposição à água contaminada pode provocar esquistossomose e infecções intestinais, doenças comuns em regiões que não têm coleta e tratamento de esgotos adequados.
Além da falta de esgotamento sanitário, o desmatamento da vegetação ciliar nas margens dos rios e açudes, algo comum da cultura de vazante na região, agrava o problema no rio Cariús: “quando a água do rio sobe, o agricultor planta num ponto mais alto, onde a água chega, e quando a água vai retornando, ele avança com a sua cultura. Para isso, é necessário retirar a mata ciliar que protege o espaço. Com o solo desprotegido, o corpo d’água reduz a capacidade de autolimpeza e de armazenamento, comprometendo a fauna e a flora locais e prejudicando diretamente as comunidades.
Depois de décadas convivendo com mau cheiro, esgoto à céu aberto e riscos à saúde, Farias Brito deu seu primeiro passo rumo à universalização do esgotamento sanitário em 2025. De acordo com a Ambiental Ceará, somente no ano passado foram investidos cerca de R$ 25 milhões na implantação de onze quilômetros de rede coletora, atendendo cerca de 3.500 moradores.
A expectativa da população de Farias Brito é que a coleta e o tratamento dos esgotos reduza drasticamente a presença de poluentes no município, devolvendo ao rio Cariús água limpa e segura, o que favorece a recuperação da biodiversidade aquática e melhora a qualidade da água para Farias Brito e também para os municípios vizinhos. A poluição dos mananciais influencia diretamente na saúde. A exposição à água contaminada pode provocar esquistossomose e infecções intestinais, doenças comuns em regiões que não têm coleta e tratamento de esgotos adequados.
Além da falta de esgotamento sanitário, o desmatamento da vegetação ciliar nas margens dos rios e açudes, algo comum da cultura de vazante na região, agrava o problema no rio Cariús: “quando a água do rio sobe, o agricultor planta num ponto mais alto, onde a água chega, e quando a água vai retornando, ele avança com a sua cultura. Para isso, é necessário retirar a mata ciliar que protege o espaço. Com o solo desprotegido, o corpo d’água reduz a capacidade de autolimpeza e de armazenamento, comprometendo a fauna e a flora locais e prejudicando diretamente as comunidades.
Estação de Tratamento de Esgotos deve ficar pronta este ano

Com implantação iniciada em maio de 2025, a rede de esgotamento sanitário de Farias Brito deve ser interligada a uma estação de tratamento de esgotos no segundo semestre deste ano, conforme previsão da Ambiental Ceará. O município conta atualmente com cerca de 10% do sistema implantado, o que inclui redes coletoras, ligações e trechos já concluídos com reposição de pavimentação das ruas.
Com o novo sistema implementado, o esgoto de Farias Brito passará por uma estação de tratamento compacta, semelhante às instaladas nos municípios de Santana do Cariri e Nova Olinda. Essas estações realizam um processo completo e eficaz de purificação do esgoto através de tecnologias implantadas dentro de tanques de fibra antes de devolvê-lo ao meio ambiente. Inicialmente, a estação terá capacidade para tratar seis litros de esgoto por segundo, podendo ser ampliada para até doze litros por segundo de acordo com a demanda.
Com o sistema de saneamento, o esgoto passará por um processo de tratamento que atende a legislação ambiental vigente pela Coema 02/2017 da SEMA, que determina os parâmetros de qualidade que o esgoto deve seguir. Assim como todas as estações de tratamento da região do Ceará, seguindo e atendendo esses parâmetros da legislação, o efluente tratado é considerado apto a voltar pro meio ambiente de forma segura.
O gerente executivo da Ambiental Ceará, Tadeu Bezerra, afirma que as obras seguem na região. “As escavações são fechadas no mesmo dia, garantindo segurança e mantendo o direito de ir e vir dos moradores”, explica. A expectativa é continuar com execução contínua das obras pelos próximos anos até 2033, quando o município (incluindo o distrito de Cariutaba) estiver com 90% de esgoto coletado e tratado.
Em 2025, a obra passou por processos administrativos junto à Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Semace), momento que envolveu a obtenção de alvarás, licenças e autorizações, normativas necessárias para a execução do empreendimento. De acordo com o gerente executivo da Ambiental Ceará, a empresa já tem liberação para atuar nos bairros Centro e Boa Vista, onde já foram implantados no ano passado nove quilômetros de rede com 1.082 ligações. Outros dois quilômetros foram implantados no Distrito de Cariutaba.
O projeto de Farias Brito faz parte de um conjunto maior, seguindo o marco de saneamento, que envolve, no Cariri, os municípios de Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri, todos atendidos dentro da Parceria Público-Privada entre a Ambiental Ceará e a Cagece. Cada município, mesmo usando tecnologias e padrões de execução semelhantes, tem sua própria meta e curva de cobertura. Em Juazeiro do Norte, por exemplo, já há uma estação de tratamento em forma de lagoa de estabilização em pleno funcionamento capaz de tratar 200 litros de esgoto por segundo. No maior município da região já foram implantados mais 120 quilômetros de rede coletora.
As obras de implantação de redes de esgotos são essenciais mas, sozinhas, não garantem saneamento básico. O saneamento básico é o conjunto de serviços essenciais que envolvem fornecimento de água potável, a coleta e o tratamento do esgoto, a limpeza e destinação do lixo e o escoamento adequado da água da chuva. “A população precisa compreender que a infraestrutura, aquele equipamento que está sendo implantado, deve ser utilizado porque trará retorno positivo de prevenção, de saúde, de melhora dos indicadores, impactando também na melhoria da educação”, garante Tadeu Bezerra.

Esgotamento sanitário serve de proteção contra enchentes

Nos períodos de chuvas intensas, o alagamento de ruas e casas são comuns em Farias Brito, principalmente em bairros mais vulneráveis como o Mutirão. No ano de 2024, muitas famílias perderam seus móveis e eletrodomésticos após as águas invadirem suas casas. Embora o sistema de drenagem urbana seja de responsabilidade da prefeitura do município, a implantação do sistema de esgotamento sanitário pode auxiliar a diminuir os impactos em decorrência das enchentes.
Atualmente, grande parte da água da chuva se mistura com o esgoto doméstico que é despejado de forma clandestina no sistema de drenagem, estrutura feita para receber apenas a água da chuva. Essa mistura causa mau cheiro e, por não ter rotas de escoamento para ela, acaba entrando nas residências, aumentando os riscos à saúde.
Com a implantação do novo sistema de esgotamento sanitário no município, o esgoto deixará de seguir para as bocas de lobo (galerias pluviais), permitindo que o sistema de drenagem cumpra o seu papel inicial. De acordo com a Ambiental Ceará, apesar de não resolver o problema das enchentes, o descarte correto do efluente impede que, em momentos de inundação, a população tenha contato com o esgoto não tratado, diminuindo parte dos danos.
Expectativas da comunidade
Paralelo às obras nas ruas, o trabalho social realizado pela Ambiental Ceará ajuda a preparar à população para implantação da rede coletora nos bairros. Programas como o De Portas Abertas e o Afluentes, além de ações realizadas nas escolas e na comunidade, tratam sobre educação ambiental e a importância no tratamento dos efluentes. Essas ações têm diminuído a resistência de alguns moradores em aposentar as fossas e se conectar à rede coletora, principalmente ao visitarem as estações de tratamento e observarem o processo na prática.
“A população vai na estação de tratamento e enxerga a forma que o esgoto chega, escuro e com fedor, aquele equipamento trabalhando e quando o esgoto sai, depois de perder muitas das características que ele tinha como esgoto bruto, é algo que sempre dá uma chamada de atenção e um toque de realidade de entender que o esgoto tem que ser tratado”, reitera a empresa.
Entre as lideranças da comunidade e participante ativa do Programa Afluentes, está a dona Maria Luza. Conhecida na cidade, ela vê o esgotamento como extremamente necessário e inevitável. Para ela, a maior mudança na cidade será o fim do esgoto à céu aberto, além do odor que sai das bocas de lobo, espalhadas principalmente pelo centro do município.
Sobre a futura cobrança relacionada à taxa de serviço que deve ser cobrada quando as caixas domiciliares de esgotos forem interligadas à rede coletora da Ambiental Ceará, assunto que não é bem recebido por parte da comunidade, Maria Luza compara: “antes a gente não tinha energia elétrica e, com a implantação, passamos a pagar. Acredito que seja a mesma situação.”
De acordo com a Ambiental Ceará, antes das máquinas chegarem às ruas, equipes da passam dando informações e orientando os moradores. Na Rua José Alves Bezerra esse esclarecimento por parte da empresa foi essencial para quem acompanha de perto. Dona Maria Hilda se mudou há 10 meses para a rua e confirma que foi avisada antes do início do serviço. Mesmo reconhecendo transtornos que são comuns na fase de escavação e movimentação de máquinas, ela entende: “se é pra melhorar depois, pode quebrar agora”.


